terça-feira, 4 de dezembro de 2012

América Latinidades...


Nossos sonhos se acendem, se apagam, se reacendem, se reapagam... se reacendem.

por Pedro Henrique (em clara resposta ao texto anterior)

Meu amigo, que belo texto escreveu! Fiz o que você sugeriu: li o texto enquanto ouvia a música e pode acreditar; desses olhos cansados brotaram lágrimas de alegria, de felicidade de ouvir a poesia do seu texto e ler aquela potência musical. É disso que algumas ou quase sempre (entre linhas) falamos: da beleza, da poesia, da arte, de uma livre existência, de poder criar um sentido a essa curta vida.

Que seja um sentido digno, ético, vou usar humano no tom que você usou, mas poderia ser também antihumano, pois esse humano do capitalismo não é humano, ou é!! Compreende? De que humano se fala, de que beleza se fala, de que comum partimos? Eu e você temos comum o suficiente para poder realizar essa troca. Mas emoções à parte, com as palavras que você tomou emprestadas de Che, com o jogo de frases de músicas que você fez, com parte de sua saga revelada, com a beleza dos seus sonhos, me senti motivado a fazer um comentário-pergunta; do que você fala? Provocações entre filos como você já disse. O que é isso de identidade?

Você já aponta algumas direções quando diz que suas palavras são vazias e podem ser sempre preenchidas e repreenchidas infinitamente. E é nesse ponto que gostaria de me deter um pouco. Tenho lido Diferença e Repetição de Deleuze, recomendo a leitura, e o autor joga com as palavras como para que repensá-las nos seus usos habituais comuns, repetidos. Antes gostaria de pensar que sou um leigo falando, então por isso sem qualquer pretensão de científico, de rigor com seus conceitos, de precisão “exata” de seus sentidos, dito isso continuemos, Nietzsche já evocava muito anterior à Deleuze a noção de eterno retorno do homem, imagine você fazendo tudo de novo e tudo de novo, mas sempre de uma forma diferente. Bascamente o conceito é isso, quem sou eu para afirmar? Eu. Então, Nietzsche pensou que essa era à força do homem, esse era seu super poder, fazer algo contrário a força da natureza, diria Deleuze. E o poder do homem estava em querer poder, e aqui um detalhe sórdido, mas crucial, não se pode faze isso de forma vulgar, não se pode fazer isso de qualquer forma, não se pode tentar repetir sem precisar uma exatidão, sem reinventar a repetição, caso contrário, estamos fardados a uma repetição morta, patológica, doente, pois da ausência de movimento e reinvenção.

O que pesa a favor desses autores, a meu ver, são suas contribuições em colocar a ciência e o conhecimento racionalizado em seu devido lugar, de pura invenção humana e invenção mal feita, melhor, bem feita se não, não teria se tornada hegemônica, mas já ultrapassada. Então vivemos em uma sociedade baseada no pensamento lógico representacional cartesiano. Aquele do “Penso, logo existo”. Os autores propõem uma reinvenção do modo de operar, do modo de conceber nossas relações com o mundo, com a linguagem, com o saber, ao invés de um pensamento representacional - e aí estaria à noção que gostaria de criticar de identidade - por um pensamento imanente, vinculado à ação diretamente, antes de termos alguma mediação, como os códigos da linguagem ou os parlamentares por que não construímos e reconstruímos constantemente esses códigos à medida que o usamos ou por que não somos nós mesmos nossos representantes. Essa é a sacada. O poder é construído e praticado por todos, em todas as instâncias. Bom amigo, este, felizmente, não é uma artigo cientifico, então vou direto ao ponto: identidade nos cola a uma imagem que representa algo, e quando falamos de representação estamos falando de a prioris, de uma essência que anteceda a prática, de algo imutável e desprovido do movimento necessário às mudanças das contingências.

Que identidade seria essa? Vamos pensar em outros termos, em termos de expressividade, de processualidade, mutabilidade, de devir do fluxo, de multiplicidades, de uma subjetividade construída nessa ação permanente do fazer humano. É de uma repetição diferente. De uma ausência de verdades absolutas. Qual identidade seria a do revolucionário? É um exercício, meu caro amigo, de pensarmos a revolução não apenas em termos macroeconômicos, mas de uma micropolítica, que repense os modos de pensar, os modos que temos de conceber o mundo, são revoluções subjetivas que precisamos efetuar diariamente na hora de comprar o pão, na hora de ouvir uma música, tipo aquela música do Raul, na hora do almoço. A revolução ainda não veio porque existem muitas pequenas revoluções em curso, muitas revoluções possíveis e muitas impossíveis ainda por vir. A (Com A maiúsculo) Revolução tão sonhada por muitos nunca foi uma ou deveria ter sido UMA, mas muitas. Nossos heróis cada qual sonhou com sua revolução e a fez, estamos a fazer as nossas?