domingo, 26 de agosto de 2012

Ciência e Sapiciência

Diante da genialidade de alguns, até mesmo um fanfarrão falastrão, fica sem o que comentar e só a pensar.
Traga 2 trechos de uma pequeno livro MUITO bom que li neste mês. Se já tive até preconceito contra o autor, depois de ter este livro, único dele que li, vou buscar conhecer mais de seus escritos. Recomendo aos curiosos, algumas belas aporias sobre o debate do científico e não científico. Fica o trecho e, provavelmente, deixarei mais, o livro é fantástico!

Rubem Alves em, "Entre ciência e sapiciência: O dilema da educação"


"Quero seduzir você a jogar um jogo de palavras chamado filosofia. Você não se interessa por filosofia, nunca estudou filosofia, nada sabe sobre os filósofos. Filosofia, coisa chata e complicada. Compreendo. Mas suas alegações simplesmente significam que você não tem condições para ser um professor de filosofia. Professores de filosofia têm de dominar uma tradição.

Mas note: o homem que inventou o alfabeto era analfabeto. o primeiro filósofo que começou a filosofia não tinha atrás de si uma bibliografia filosófica. Excesso de informações perturba o pensamento. 'quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam', assim dizia Manoel de barros. (é poeta-criança. Criança brinca com brinquedos; poeta brinca com palavras. Essa afirmação do poeta não é científica. Não foi produzida por método. Ela é mágica. Quebra feitiços. Faz voar idéias plantadas.) Frenquentemente os professores de filosofia pensam tanto o pensamento de outros que acabam por não ter pensamentos próprios." [...]

"Estou ouvindo 'Eu não existo sem você', de Tom Jobim. Só posso ouvi-la por causa da ciência. Foi a ciência que, com teorias e medições, construiu meu computador. Foi ela que, com teorias e medições, produziu o cd, traduzindo a música em entidades eletrônicas definidas. Mas um engenheiro surdo poderia ter feito isso. Porque as redes da ciência não pegam música. Pegam entidades eletrônicas quantificáveis. Assim, um cientista que fosse também um filósofo, ao declarar 'Isso não é científico', estaria simplesmente confessando: 'Isso, as redes da ciência não conseguem pegar. Elas deixam passar. Seria necessário outra rede...'

Volto a Manoel de Barros: ' A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos'. Outra rede: meu corpo é a outra rede, feita de coração, sangue e emoção. Deixa passar o que a ciência segura. E segura o que a ciência deixa passar. Não mede s encantos do sabiá. Mas fica triste ao ouvi-lo, ao cair de tarde... Isso também é parte da realidade. Sem ser científico."

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Uma poeira de estrela entre galaxias


Demorei muito para dar um passo para trás, trabalhar bastante para esvaziar a mente e comentar o texto que eu curti muito! Sei que o dialogo está chato e apenas entre dois, mas é bom saber que muitos livros lidos como obrigatórios pelos estudos humanos foram escritos, na verdade, em formas de cartas entre amigos que cursando seus estudos longe um do outro, compartilhavam e instigavam-se nos pontos controvérsios.

É duro perceber que o protocolo de vida está nos consumindo. De uns dois anos para cá, um filme tem consumido minha moral: "Como Estrelas na Terra". A objetivação da vida por meio da técnica positivista tenta nos moldar e nos colocar como padrões semelhantes, mas, ao ver tal filme, eu lembro um pouco do que sou, que sou um pouco retardado para algumas coisas, que sou uma criança que não sabe jogar alguns jogos de adultos, que viajar sempre foi muito melhor do que ancorar (principalmente as ideias). Sei também, que muitos conhecidos devem ser assim, cada um na sua particularidade, mas, educado foi para matar sua abertura ao mundo. Somos todos iguais, dentro de cada diferença por sermos exatamente diferentes

O filme trata de uma criança indiana que parece ser "estranha", não se esforça, não tem interesse pelas coisas importantes, irresponsável, marginal dentro da própria casa... um retardado. O guri, interpretado por um ator fenomenal, com o olhar, traz a lembrança do que é sonhar! Como é bom, ao menos, lembrar o que é sonhar...

Não vou contar o filme, mas claro que tem um "final feliz". Este, só ocorre porque há um amigo, um novo amigo, que o entende, que se coloca no lugar do menino e busca comunicar na sua linguagem, pela arte. Não sei bem qual é a minha linguagem, sempre desconfio que é jogar conversa pro ar, especular, tentar demonstrar que aquilo que parece ser tão certo, não é. Porque? porque nada é, mas está! Estou aqui, jogando palavras num papel virtual. quero mesmo é dizer que, algumas pessoas tem o dom de comunicar conosco naquela viagem que só a gente faz, como se adentrassem nos nossos sonhos. Muitas delas nem sabem disso. 

Como é importante para o conhecimento a relação com o amigo! Várias formas de amizade. Pedro, me conhece pela vírgula, sabe exatamente porque de um sofrimento sem precisar utilizar das técnicas de psicologo, passo a me conhecer melhor através dele. Fernanda, estranhamente, acho que não consegue me entender dessa forma, mas incrivelmente, adentra fundo mexendo com algo que os calos da infância quase me fizeram esquecer! Me faz assumir e ser aquilo que sou.

Volto-me ao filme. Não sei pintar quadros, não sei abrir mão das coisas, quero abraçar o mundo com uma só mão. Sou egoísta. Não tenho nem a metade da bondade do garoto, mas sinto bem o que é correr aos braços de alguém que nos faz mudar e aceitar o que somos.

Em sonho nenhum tinha escritórios, papeis e burocracia. Não podemos nos deixar prender aos sonhos e nas lembranças da infância. Mas podemos buscar construir da vida um sonho. O homem cria técnica e reproduz conhecimento. Mas o computador não escreve sozinho, o forno precisa de algo a ser assado. Uma receita não é só combinação perfeita de ingredientes. É necessário que sejamos senhores de nossos passos, sabendo que não somos senhores de nossos destinos, porque o sorriso daquela mulher já seria suficiente para que todos os planos sejam refeitos. é tudo um Caos. ordem a partir do caos. Necessário que a cada dia pensemos, o que fazemos com tanto conhecimento? o que é função social? o que realmente nos importa? quais são as metas? mas, porque ter metas? 

O manifesto da preguiça seria ótimo, mas não é preguiça! é uma luta árdua, para que o não epistemológico, o amor, vença! não é o bem, é o amar. É poder olhar para o que somos por meio de ações, não permitir que nossas criações não nos controle, e por isso, perceber, que não podemos controlar o que Deus (ou qualquer outra concepção) criou.Um abraço não tem preço, mas possui um valor mais prazeroso que gastar um dinheiro com o mesmo amigo em um shopping (por ex.). Fazer amor naquele colchão velho com certeza é muito mais importante do que uma noite de sexo em um suite de luxo. Sou um materialista que, sabendo da necessidade do mundo material para viver, pede socorro ao mundo que percebam que o afeto afeta muito mais!


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

(...)


Por: Pedro Henrique

Conversando com meu amigo Guilherme, que tal se hoje falarmos um pouco da simplicidade da roça, do interior, da cidade pequena.

A beleza não está nas coisas grandes, está nas coisas simples e pequenas, pequeno como o Gui, irmão, brother e companheiro de longa data. Nosso diálogo vem girando na órbita da questão do sujeito moderno. Os barulhos, os ruídos, as buzinas, os arranha-céus, o caos do trânsito, a poluição, os compromissos, o trabalho, tudo vem nos consumindo e angustiando, quase não temos tempo para apreciar a beleza de olhar o céu, de contemplar o entardecer ou sentir o vento na face, como a vida moderna e privada tem nos privado de sensações e experimentações tão antigas quanto o próprio homem! Pouco se sobra para receber um amigo em casa, ou visitar aquele amigo que tempos não vemos. Sim, nossos protocolos estão nos consumindo. Antes o trabalho, antes o dinheiro, antes o documento...

Que saudade meu amigo, de passar tempos conversando fiado com você e o Ricardo, de ganhar tempo jogando xadrez, de matar as aulas, dos namorinhos, saudade de um tempo que não volta mais. Coisas boas e belas vivemos, mas meu amigo, se quisermos fazer verdadeiramente uma rotação nessa rotina estressante, nesse sujeito moderno, mais do que lembrar os bons e velhos tempos, vamos tem que fazer mais, vamos ter que reinventar o presente. Não basta sentir saudades daquele tempo, é preciso fazer do presente algo de bom. Não se pode deixar que essa vida urbana continue sugando nossas vidas, nossa criatividade, é hora de colocar uma ferragem na engrenagem, de fazer o motor parar. Pela greve de qualquer tipo de trabalho, um manifesto pela preguiça e pela boa prosa na esquina, pelo gole de café e pela dose de cachaça, pelo lazer e pela liberdade de ser o que se é.

Acho que é hora de ir além das lamentações de um sistema opressor e explorador, precisamos efetivamente reinventar nossas práticas, é disso que tem se tratado até o momento nos nossos diálogos, é de um manifesto por um pouco de ar puro, como na roça, de oxigenação, de um manifesto pela reinvenção de nossas práticas. Deveríamos parar nossos ofícios, fazer nada, fazer coisa alguma. Fazer coisas que nos dê prazer. Como já foi dito, não se trata de tarefa fácil, mas sim, árdua. Desvencilhar dos grilhões invisíveis que nos amarram é tão difícil, pois envolve tanta coisa, tanta norma, tanto condicionamento, tanta educação, a idade que se tem de vida e mais um pouco. O desprendimento é um exercício doloroso, contínuo e prolongado que se faz permanentemente por toda a vida.
 Nossos corpos, nossa linguagem está acostumada, está viciada num modo de pensar e organizar que se não chutarmos o balde, a engrenagem nos consome a alma. Alma que me refiro é a psiquê, uma postura do ser com e no mundo.

Nos texto que o Guilherme nos deixou, não sei ao bem o que ele quis dizer, na verdade, não se pode tirar qualquer impressão dali que não seja completamente construída e projetada por minhas concepções, ou seja, tudo se trata de interpretação, e até onde me consta todos têm a sua. É claro que os signos partem de um comum, mas seus significados são tantos quantos seus sentidos. Ao lê-lo pela primeira vez, tive a impressão de que se tratava de um texto em reposta ao primeiro texto que escrevi, mas retornando ao texto pela segunda vez, vejo quantas coisas estão entrelinhas, quantos sentidos outros podem ser inventados ali. Que belo texto, que bela angústia, fúria e a paixão de quem é passional! Você diz que o materialismo não lhe foge a mão, é claro que não meu amigo, mas de que materialismo você fala? De coisas concretas? O dialético? Quantas verdades existem?  Por que deveria supor que minha verdade é a certa? Então, por que haveria de dizer que sou materialista? Não seriam todos? As pessoas não são concretas, elas não existem? A bela retórica, você convence até um passageiro de um avião a cair que não está caindo. A questão é encontrar uma lacuna, uma fenda, um furo, mas que discurso não é furado? Por isso invitamos a escrita, “escreveu não leu o pau comeu!” Sei do que você fala; de uma velha discussão epistemológica entre os que se dizem materialistas e os idealistas. Quero lhe fazer uma provocação nesse sentido, o materialista mais materialista é o maior idealista quem conheço, que é Karl Marx, esse sonhou com um idealismo jamais visto, até então. E o idealista mais idealista que você conhece, não se trata de um materialista? Não quero me estender nessa discussão por que não gosto de discussões “metafísicas”, “idealistas,” sou marxista, mas sou pequeno burguês tupiniquim, vindo do gueto, da escola pública, apostólico e torço para O maior de Minas. Resumindo, tudo é concreto, tudo pode ser concreto, ou você desprende uma enorme energia contrapondo uma teoria que não existe? As coisas estão muito mais misturadas do que imaginamos, então ao invés de perder tempo a mais, nos fragmentando e classificando, talvez no passado isso já cumpriu seu dever, mas agora, agora não, deveríamos nos preocupar com os efeitos de nossas práticas. Por isso, uma política urgente do presente, das nossas práticas, além de discutirmos novos sujeitos, devemos ser novos sujeitos, então meu grande amigo, faça sua greve! Dê um tempo a você, respeito seu tempo. Você é o latino-americano mais apaixonado quem conheço, as palavras de Drummond são provincianas porque seu coração é metropolitano, sim, o sujeito e suas crenças estão em tudo, jogue fora as aplicações, não existe nada em essência que possa vir externamente e ser aplicado, somos culpados por um pecado fundamental, a culpa cristã nos consome, jogue-as fora. Não se precisa ter um cão e a falta, essa, sempre nos sobrará!  Enfim, pouco falei da simplicidade da roça, que tal se ficar para uma próxima!