segunda-feira, 23 de julho de 2012

“Eu me lembro muito bem, do tempo que você sonhava...”


Por: Pedro Henrique


É, tenho andado meu caminho, tenho visto pessoas..., mas quem sabe a vida lá no trópico ande a mil? Tenho um cachorro que se chama Belchior, resolvi colocar esse nome nele, porque sou fã de carteirinha do grande compositor e músico. Quase sempre que posso, coloco uma música aqui, outra ali, recentemente escutei, acho que o ultimo disco de músicas inéditas o As várias caras de Drummond, um claro elogio do cearense ao nosso grande poeta mineiro, de 2004, um disco espetacular porque Belchior me surpreendeu com suas letras e melodias, ele se superou indo além do seu velho e bom repertório. Sou um jovem que desceu da cidade do interior mineiro para a capital do Espírito Santo, como muitos mineiros e como os muitos nordestinos buscando uma vida melhor no Sudeste. Felizmente a economia do país anda razoável, em vista dos anos anteriores ao governo de centro-esquerda, e o movimento tem se invertido, as pessoas tem retornado às suas cidades, aos seus estados.

Sinceramente, se eu fosse fazer um elogio a este cantor, acho que poderia passar um final de semana escrevendo em frente ao computador e ainda não me cansaria. É desses que não se enjoa de ouvir, cada vez que eu ouço parece que é a primeira vez, sempre uma nova composição, sempre surge algo de novo, percebo algo que não tinha percebido ou dado atenção, conecto com outras coisas e por aí vai. Mas nada é divino, nada é sagrado, nada é maravilhoso. Neste momento, para variar, estou ouvindo.

Mas não se trata dele neste curto texto, acho que venho dizer aqui de outra coisa, mas tomei emprestadas suas canções para criar uma atmosfera, em enredo de aproximação, de afeição, de coisas que possamos ter em comum, preparando a cama. Sonhos. Vamos sonhar.

O que me levou a sair, provisoriamente da terra do UAI, dos casos, da terra dos contos, da amizade, da família, da rocinha, do cigarro de palha, do pão de queijo, das montanhas e cachoeiras, dos companheiros é o desejo de um mundo melhor, sem chavões, por favor! Um mundo melhor para mim e para o próximo, estou pensando no meu futuro, entretanto, não se tem futuro individual, só se pode ter futuro coletivo. É chegado o momento onde o EU deve dar espaço, ceder um pouco, dar passagem a um novo sujeito, a uma nova relação do homem com seu mundo, é preciso pensar em outras formas de subjetivação para além dos egoísmos, individualismos e ismos a perder de vista.  Um sonho é tão curto e tão intenso, chegam a ser segundos.

Tarefa difícil e árdua exilar-se de si mesmo. A distância é tão linda quanto à proximidade, só precisamos saber apreciá-la, e depois voltar, voltar a si. Porém, como diria Foucault ou Nietzsche, qualquer um dos dois, uma conversão, um retorno a si, nunca é um simples retorno, sempre tem algo ali de diferente, que mudou nesse meio-tempo. Que bom seria se fosse sempre um (re) começo, que bom seria se nos perdêssemos um pouco. Na verdade, estou precisando de chão, de terra, pão, de “coisas reais”. É simples sonhar, às vezes surge uma vontade enorme de vomitar no mundo toda miséria que engolimos de uma única vez, mas o discurso lógico e racional nos impõe uma ordem, uma limitação, uma ordem da coerência, cansei da coerência, e que tal se todos se explodissem? Rizoma, fascismo, qualquer coisa, mentiras, farsa, saco cheio, doce, nozes, balões, música, ar, novela. Quando acaba, pode ser um novo começo, que tal se nos começássemos de novo? E se não precisasse fazer sentido?  E se invertamos outra coisa?  Se no lugar do discurso coerente e lógico fossemos movidos pela paixão, pelo ethos, pela ética, pelo amor, e se fossemos menos autoritários, e se não fossemos os donos do saber, e se questionarmos a NÓS mesmos, e se nossa cognição fosse outra? É possível? Não sei, mas sei que é preciso mudar e, sinceramente, não estou preocupado, neste momento, em propor algum esquema ou estrutura social ou econômica ou filosófica ou escambau a quatro, nada disso me interessa no momento, porque tamanha a urgência e a miséria que bate nas nossas portas todos os dias ou nas ruas em que passamos. 
 
Acredito que os movimentos de Occupy pelo mundo à fora, os Indignados, o Zapatista, o MST, A Primavera Árabe, é um recado claro, claro e em bom tom de que as coisas não andam bem e precisam mudar. Chega de dizer ao outro o que é bom ou ruim, “cruel ou paixão”, chega dessa moral burguesa, da exploração do homem pelo homem, não estou propondo anarquia, aliás, que fique claro, não se trata disso. Minha, nossa proposição é um mínimo de civilidade, poderíamos inventar outra palavra, pois o que vemos, hoje, não pode ser considerado, em hipótese alguma, civilidade. A essa altura não espero muita coisa, só um mínimo, que bom seria se ele desse conta de dissipar nossas instituições. Se essa lógica Newtoniana e Cartesiana, como disse Guilherme, explodisse! Que bom seria se a vida fosse uma música, uma poesia, um filme, uma obra de arte que as coisas fossem fazendo sentido à medida que fossemos experimentando, que fossemos sentindo, que fossemos tocados, sensibilizados com o próximo, que fosse beleza, que fosse intenção, que fosse sonho, que fosse fênix, que ressurgisse das cinzas. Ainda ousam dizer que as palavras não rasgam papéis, que elas não ferem, que elas não tocam, que elas não tem força, que não mudam as coisas.  Na verdade, cansei das palavras, que bom seria se a vida fosse ação. Palavra é ação! Jogou no ar, já era! Não tem volta, dá pra pedir uma desculpa, é obvio.

Quer saber a verdade? Não a eterna e absoluta dos senhores da verdade, mas essa parcial e provisória. Meu cachorro Belchior tem me ensinado mais coisas, realmente úteis à vida, como compaixão, companheirismo, lealdade, simplicidade, determinação, força de vontade, respeito e amor à vida e o amor nestes cinco meses que estou com ele, do que nesses 20 anos de escola.

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