Por: Pedro Henrique
Conversando com meu amigo Guilherme, que tal se hoje
falarmos um pouco da simplicidade da roça, do interior, da cidade pequena.
A beleza não está nas coisas grandes, está nas coisas
simples e pequenas, pequeno como o Gui, irmão, brother e companheiro de longa
data. Nosso diálogo vem girando na órbita da questão do sujeito moderno. Os
barulhos, os ruídos, as buzinas, os arranha-céus, o caos do trânsito, a
poluição, os compromissos, o trabalho, tudo vem nos consumindo e angustiando,
quase não temos tempo para apreciar a beleza de olhar o céu, de contemplar o
entardecer ou sentir o vento na face, como a vida moderna e privada tem nos
privado de sensações e experimentações tão antigas quanto o próprio homem!
Pouco se sobra para receber um amigo em casa, ou visitar aquele amigo que
tempos não vemos. Sim, nossos protocolos estão nos consumindo. Antes o
trabalho, antes o dinheiro, antes o documento...
Que saudade meu amigo, de passar tempos conversando fiado
com você e o Ricardo, de ganhar tempo jogando xadrez, de matar as aulas, dos
namorinhos, saudade de um tempo que não volta mais. Coisas boas e belas
vivemos, mas meu amigo, se quisermos fazer verdadeiramente uma rotação nessa
rotina estressante, nesse sujeito moderno, mais do que lembrar os bons e velhos
tempos, vamos tem que fazer mais, vamos ter que reinventar o presente. Não
basta sentir saudades daquele tempo, é preciso fazer do presente algo de bom. Não
se pode deixar que essa vida urbana continue sugando nossas vidas, nossa
criatividade, é hora de colocar uma ferragem na engrenagem, de fazer o motor
parar. Pela greve de qualquer tipo de trabalho, um manifesto pela preguiça e
pela boa prosa na esquina, pelo gole de café e pela dose de cachaça, pelo lazer
e pela liberdade de ser o que se é.
Acho que é hora de ir além das lamentações de um sistema
opressor e explorador, precisamos efetivamente reinventar nossas práticas, é
disso que tem se tratado até o momento nos nossos diálogos, é de um manifesto
por um pouco de ar puro, como na roça, de oxigenação, de um manifesto pela
reinvenção de nossas práticas. Deveríamos parar nossos ofícios, fazer nada,
fazer coisa alguma. Fazer coisas que nos dê prazer. Como já foi dito, não se
trata de tarefa fácil, mas sim, árdua. Desvencilhar dos grilhões invisíveis que
nos amarram é tão difícil, pois envolve tanta coisa, tanta norma, tanto
condicionamento, tanta educação, a idade que se tem de vida e mais um pouco. O
desprendimento é um exercício doloroso, contínuo e prolongado que se faz
permanentemente por toda a vida.
Nossos
corpos, nossa linguagem está acostumada, está viciada num modo de pensar e organizar
que se não chutarmos o balde, a engrenagem nos consome a alma. Alma que me
refiro é a psiquê, uma postura do ser
com e no mundo.
Nos texto que o Guilherme nos deixou, não sei ao bem o que
ele quis dizer, na verdade, não se pode tirar qualquer impressão dali que não
seja completamente construída e projetada por minhas concepções, ou seja, tudo
se trata de interpretação, e até onde me consta todos têm a sua. É claro que os
signos partem de um comum, mas seus significados são tantos quantos seus
sentidos. Ao lê-lo pela primeira vez, tive a impressão de que se tratava de um
texto em reposta ao primeiro texto que escrevi, mas retornando ao texto pela
segunda vez, vejo quantas coisas estão entrelinhas, quantos sentidos outros
podem ser inventados ali. Que belo texto, que bela angústia, fúria e a paixão
de quem é passional! Você diz que o materialismo não lhe foge a mão, é claro
que não meu amigo, mas de que materialismo você fala? De coisas concretas? O
dialético? Quantas verdades existem? Por
que deveria supor que minha verdade é a certa? Então, por que haveria de dizer
que sou materialista? Não seriam todos? As pessoas não são concretas, elas não
existem? A bela retórica, você convence até um passageiro de um avião a cair
que não está caindo. A questão é encontrar uma lacuna, uma fenda, um furo, mas
que discurso não é furado? Por isso invitamos a escrita, “escreveu não leu o
pau comeu!” Sei do que você fala; de uma velha discussão epistemológica entre
os que se dizem materialistas e os idealistas. Quero lhe fazer uma provocação
nesse sentido, o materialista mais materialista é o maior idealista quem
conheço, que é Karl Marx, esse sonhou com um idealismo jamais visto, até então.
E o idealista mais idealista que você conhece, não se trata de um materialista?
Não quero me estender nessa discussão por que não gosto de discussões “metafísicas”,
“idealistas,” sou marxista, mas sou pequeno burguês tupiniquim, vindo do gueto,
da escola pública, apostólico e torço para O maior de Minas. Resumindo, tudo é
concreto, tudo pode ser concreto, ou você desprende uma enorme energia
contrapondo uma teoria que não existe? As coisas estão muito mais misturadas do
que imaginamos, então ao invés de perder tempo a mais, nos fragmentando e classificando,
talvez no passado isso já cumpriu seu dever, mas agora, agora não, deveríamos
nos preocupar com os efeitos de nossas práticas. Por isso, uma política urgente
do presente, das nossas práticas, além de discutirmos novos sujeitos, devemos
ser novos sujeitos, então meu grande amigo, faça sua greve! Dê um tempo a você,
respeito seu tempo. Você é o latino-americano mais apaixonado quem conheço, as palavras
de Drummond são provincianas porque seu coração é metropolitano, sim, o sujeito
e suas crenças estão em tudo, jogue fora as aplicações, não existe nada em essência
que possa vir externamente e ser aplicado, somos culpados por um pecado
fundamental, a culpa cristã nos consome, jogue-as fora. Não se precisa ter um
cão e a falta, essa, sempre nos sobrará!
Enfim, pouco falei da simplicidade da roça, que tal se ficar para uma próxima!
Nenhum comentário:
Postar um comentário