sexta-feira, 10 de agosto de 2012

(...)


Por: Pedro Henrique

Conversando com meu amigo Guilherme, que tal se hoje falarmos um pouco da simplicidade da roça, do interior, da cidade pequena.

A beleza não está nas coisas grandes, está nas coisas simples e pequenas, pequeno como o Gui, irmão, brother e companheiro de longa data. Nosso diálogo vem girando na órbita da questão do sujeito moderno. Os barulhos, os ruídos, as buzinas, os arranha-céus, o caos do trânsito, a poluição, os compromissos, o trabalho, tudo vem nos consumindo e angustiando, quase não temos tempo para apreciar a beleza de olhar o céu, de contemplar o entardecer ou sentir o vento na face, como a vida moderna e privada tem nos privado de sensações e experimentações tão antigas quanto o próprio homem! Pouco se sobra para receber um amigo em casa, ou visitar aquele amigo que tempos não vemos. Sim, nossos protocolos estão nos consumindo. Antes o trabalho, antes o dinheiro, antes o documento...

Que saudade meu amigo, de passar tempos conversando fiado com você e o Ricardo, de ganhar tempo jogando xadrez, de matar as aulas, dos namorinhos, saudade de um tempo que não volta mais. Coisas boas e belas vivemos, mas meu amigo, se quisermos fazer verdadeiramente uma rotação nessa rotina estressante, nesse sujeito moderno, mais do que lembrar os bons e velhos tempos, vamos tem que fazer mais, vamos ter que reinventar o presente. Não basta sentir saudades daquele tempo, é preciso fazer do presente algo de bom. Não se pode deixar que essa vida urbana continue sugando nossas vidas, nossa criatividade, é hora de colocar uma ferragem na engrenagem, de fazer o motor parar. Pela greve de qualquer tipo de trabalho, um manifesto pela preguiça e pela boa prosa na esquina, pelo gole de café e pela dose de cachaça, pelo lazer e pela liberdade de ser o que se é.

Acho que é hora de ir além das lamentações de um sistema opressor e explorador, precisamos efetivamente reinventar nossas práticas, é disso que tem se tratado até o momento nos nossos diálogos, é de um manifesto por um pouco de ar puro, como na roça, de oxigenação, de um manifesto pela reinvenção de nossas práticas. Deveríamos parar nossos ofícios, fazer nada, fazer coisa alguma. Fazer coisas que nos dê prazer. Como já foi dito, não se trata de tarefa fácil, mas sim, árdua. Desvencilhar dos grilhões invisíveis que nos amarram é tão difícil, pois envolve tanta coisa, tanta norma, tanto condicionamento, tanta educação, a idade que se tem de vida e mais um pouco. O desprendimento é um exercício doloroso, contínuo e prolongado que se faz permanentemente por toda a vida.
 Nossos corpos, nossa linguagem está acostumada, está viciada num modo de pensar e organizar que se não chutarmos o balde, a engrenagem nos consome a alma. Alma que me refiro é a psiquê, uma postura do ser com e no mundo.

Nos texto que o Guilherme nos deixou, não sei ao bem o que ele quis dizer, na verdade, não se pode tirar qualquer impressão dali que não seja completamente construída e projetada por minhas concepções, ou seja, tudo se trata de interpretação, e até onde me consta todos têm a sua. É claro que os signos partem de um comum, mas seus significados são tantos quantos seus sentidos. Ao lê-lo pela primeira vez, tive a impressão de que se tratava de um texto em reposta ao primeiro texto que escrevi, mas retornando ao texto pela segunda vez, vejo quantas coisas estão entrelinhas, quantos sentidos outros podem ser inventados ali. Que belo texto, que bela angústia, fúria e a paixão de quem é passional! Você diz que o materialismo não lhe foge a mão, é claro que não meu amigo, mas de que materialismo você fala? De coisas concretas? O dialético? Quantas verdades existem?  Por que deveria supor que minha verdade é a certa? Então, por que haveria de dizer que sou materialista? Não seriam todos? As pessoas não são concretas, elas não existem? A bela retórica, você convence até um passageiro de um avião a cair que não está caindo. A questão é encontrar uma lacuna, uma fenda, um furo, mas que discurso não é furado? Por isso invitamos a escrita, “escreveu não leu o pau comeu!” Sei do que você fala; de uma velha discussão epistemológica entre os que se dizem materialistas e os idealistas. Quero lhe fazer uma provocação nesse sentido, o materialista mais materialista é o maior idealista quem conheço, que é Karl Marx, esse sonhou com um idealismo jamais visto, até então. E o idealista mais idealista que você conhece, não se trata de um materialista? Não quero me estender nessa discussão por que não gosto de discussões “metafísicas”, “idealistas,” sou marxista, mas sou pequeno burguês tupiniquim, vindo do gueto, da escola pública, apostólico e torço para O maior de Minas. Resumindo, tudo é concreto, tudo pode ser concreto, ou você desprende uma enorme energia contrapondo uma teoria que não existe? As coisas estão muito mais misturadas do que imaginamos, então ao invés de perder tempo a mais, nos fragmentando e classificando, talvez no passado isso já cumpriu seu dever, mas agora, agora não, deveríamos nos preocupar com os efeitos de nossas práticas. Por isso, uma política urgente do presente, das nossas práticas, além de discutirmos novos sujeitos, devemos ser novos sujeitos, então meu grande amigo, faça sua greve! Dê um tempo a você, respeito seu tempo. Você é o latino-americano mais apaixonado quem conheço, as palavras de Drummond são provincianas porque seu coração é metropolitano, sim, o sujeito e suas crenças estão em tudo, jogue fora as aplicações, não existe nada em essência que possa vir externamente e ser aplicado, somos culpados por um pecado fundamental, a culpa cristã nos consome, jogue-as fora. Não se precisa ter um cão e a falta, essa, sempre nos sobrará!  Enfim, pouco falei da simplicidade da roça, que tal se ficar para uma próxima!


Nenhum comentário:

Postar um comentário