Meu amigo Gui me convocou para escrever um texto sobre a
importância do movimento estudantil, visto que minha pesquisa de mestrado fala
um pouco sobre a temática, mas o que tenho a dizer é sobre outra coisa, infelizmente
caro amigo, nem sempre somos nós quem decide o que se escreve, às vezes, as
coisas é que nos convocam a escrever, a vida que nos convoca, ela nos agencia,
deparamo-nos com o que não esperávamos ou imaginávamos, eis aí a beleza que se
tem na capacidade de surpreender que só a vida nos oferece. Estive esperando
esse momento, estava, há algum tempo, esperando que alguma coisa me mobilizasse
e em tempos difíceis, pouca coisa tem feito isso.
Foi quando, sem querer, coloquei a TV em um canal e vi um
filme cuja sua imagem e fotografias me chamaram a atenção, tratava-se de um
clássico estilo de fazer cinema brasileiro, no qual os atores, o cenário, o
roteiro, tudo parece real, mesmo com cerca de vinte ou trinta minutos de filme,
resolvi assisti-lo. Os diálogos me prenderam a atenção, existiu ali uma
afinidade, simpatia, transferência, empatia, não sei que conceito, mas é esse
que diz das experiências que temos quando compartilhada com outros. O nome do
filme é A falta que nos move, sem
mais delongas vamos ao que interessa, quer dizer então que com essa introdução
quis afirmar que é preciso ter alguma falta para a humanidade caminhar? Sim,
aliás, não sei porque to querendo responder essa questão, melhor, me lembrei. É
de uma incompletude dos textos que escrevo, é de meios-ditos, não ditos,
inverdades, farsas, histórias mal contadas, de um meio, de uma metade, tem me
faltado à inspiração, a vontade de escrever, a vontade de poder, a falta não me
tem aparecido, tem me faltado à falta. Dizem alguns provérbios chineses que é
preciso ter uma xícara vazia para poder aprender outras lições, minha xícara
deve estar cheia, de saco cheio porque não me sobra um pouquinho que for para
animar a escrever alguma coisa.
A liberdade exige a responsabilidade com ela, tempos da morte
dos ideais, morte das grandes utopias, dos grandes discursos, são tempos da
provisoriedade, e é preciso saber viver com ela. Meu amigo Guilherme, gostaria
que visse esse filme, ele é como o filme que você me indicou, tem algo que nos
acalanta um sobro de vida. Uma surpreendente potência de vida que o homem se
põe a inventar para dar sentido a sua existência. O filme celebra e brinda as
mentiras bem contadas, faz um brinde as pessoas do mundo, a generosidade, a
compaixão e a esperança de uma vida melhor. Uma alusão entre a linha tênue e
quase inexistente entre verdade e mentira, poderia dizer inexistente, mas
melhor não. Um soco nos estômago dos fracos e um chute na canela dos fortes.
Quer saber de outra coisa Gui? Imagine a vida como um jogo
de xadrez entre o sujeito, para você o ser
(sei que gosta da fenomenologia- existencial), e o tempo, em que não há
vencedores, apenas belos lances, belas jogadas, ora somos nós é quem enganamos
o tempo, ora ele. Apenas fazemos o que deve ser feito; o homem existe e o tempo
é.
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